Neste Dia Mundial de Conscientização do Autismo, o STIM se soma à luta por inclusão e respeito e propõe uma reflexão necessária: quem cuida de quem cuida? Por trás de cada criança atípica, há uma mãe que, todos os dias, enfrenta o desafio de equilibrar o cuidado intensivo com a necessidade de trabalhar e garantir o sustento da família.
A rotina dessas mulheres é marcada por uma sobrecarga que muitas vezes passa despercebida. Entre terapias, consultas médicas, acompanhamento escolar e demandas emocionais constantes, o tempo é escasso. Ainda assim, é preciso cumprir jornada de trabalho, bater metas, manter a produtividade. E, nesse processo, surge um sentimento recorrente: o de estar sempre em dívida, seja com o trabalho, seja com o filho.
“Eu saio para trabalhar com o coração apertado, mas sei que preciso estar lá. Ao mesmo tempo, sinto que nunca estou inteira em nenhum dos dois lugares”, relata uma mãe de criança com autismo.
Essa realidade escancara um problema estrutural: embora existam avanços na legislação, o acesso aos direitos ainda é limitado e desigual, especialmente para quem está no setor privado.
Servidores públicos já contam com a possibilidade de redução da jornada de trabalho, sem prejuízo salarial, para acompanhar filhos com deficiência, desde que haja comprovação da necessidade. No entanto, para a maioria das trabalhadoras brasileiras, esse direito ainda não é garantido, o que reforça desigualdades e amplia a sobrecarga.
Há também o acesso a benefícios como o Benefício de Prestação Continuada (BPC), destinado a pessoas com deficiência em situação de vulnerabilidade, além de direitos à prioridade em atendimentos e políticas de inclusão. No campo previdenciário, a pessoa com deficiência pode ter direito à aposentadoria com critérios diferenciados, considerando o grau da deficiência.
Mas e as mães?
Hoje, não existe uma política nacional estruturada que reconheça, de forma efetiva, o impacto do cuidado contínuo na vida profissional dessas mulheres. Muitas acabam reduzindo jornadas, recusando oportunidades ou deixando o mercado de trabalho. Isso afeta diretamente a renda, a autonomia e, no futuro, a aposentadoria.
O cuidado, embora essencial, ainda é invisibilizado. Não é remunerado, não entra nas estatísticas econômicas e, muitas vezes, não é reconhecido como trabalho. Mas ele exige tempo, energia, preparo e dedicação integral.
Além da sobrecarga física, há o desgaste emocional. Estudos já apontam níveis elevados de estresse e exaustão entre mães atípicas, que acumulam funções sem uma rede de apoio consistente.
Mesmo diante de tantas dificuldades, essas mulheres seguem. Se reinventam, criam redes de apoio, buscam informação e, muitas vezes, se tornam vozes ativas na luta por direitos e inclusão.
Mas essa não pode ser uma luta solitária.
Neste 2 de abril, mais do que conscientizar sobre o autismo, é preciso ampliar o olhar para quem sustenta, cuida e resiste diariamente. Garantir condições dignas de trabalho para mães atípicas, com políticas públicas efetivas, ampliação de direitos e maior sensibilidade por parte das empresas, é um passo essencial para uma sociedade verdadeiramente inclusiva.
Porque inclusão também é garantir que essas mulheres não precisem escolher entre cuidar de seus filhos e sobreviver.